Mães em
ação na Quinta
O seqüestro
de crianças inspirou espetáculo de teatro ao ar livre
que reuniu no parque de São Cristóvão centenas
de crianças e adulto
No Domingo de Páscoa
(23/03), centenas de pessoas se reuniram, das 9h às 13h, na
Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, para a
primeira ação social promovida pelo movimento
Helaiz - criado por mães cujas
filhas foram seqüestradas e mortas para combater esse tipo de
violência.
Após um momento
ecumênico de oração, um espetáculo de
teatro, encenado ao ar livre pelo Grupo Tá na Rua, envolveu
e comoveu pessoas de todas as idades ao levar, de modo
lúdico e interativo, a mensagem de alerta do movimento
Helaiz sobre os perigos existentes e os
cuidados necessários para a prevenção desse
tipo de violência.
Realidade e
ficção, lágrimas e sorrisos se misturaram na
apresentação teatral. Mães que tiveram de fato
seus filhos seqüestrados deram seu depoimento verdadeiro e
ofereceram às mães dicas de segurança que liam
em cartões que retiravam de uma imensa cartola
"mágica" e colorida. Por meio das diferentes
histórias encenadas com humor e sensibilidade, personagens
como a raposa boa e a bruxa bonita envolveram as crianças em
enredos criados para lhes mostrar que o vilão nem sempre se
apresenta feio ou com cara de mau.
Ao final do
espetáculo, seis mil pedaços de bolo de chocolate,
feitos com semente de abóbora, foram servidos ao
público freqüentador da Quinta da Boa Vista por
mães de crianças desaparecidas atendidas pelo Projeto
Mais Energia, de ensino de culinária com o aproveitamento
total de alimentos, patrocinado pela Firjan e pela Minasgás,
em parceria com o Programa SOS Crianças Desaparecidas, do
governo estadual.
Pulseirinhas de
identificação, fornecidas pelo SOS Crianças
Desaparecidas, foram distribuídas pelas mães do
movimento Helaiz. Ainda assim, no
início da tarde, a Guarda Municipal informava que mais uma
criança havia se perdido de seus parentes dentro do parque.
O segundo caso do dia.
"Essa foi apenas a primeira
de nossas ações. Pretendemos agir concretamente, em
escolas e espaços públicos, em um corpo-a-corpo com a
população de risco. Crianças perdidas, quando
há solidariedade, acabam reencontrando seus pais, a
não ser que se tornem vítimas de criminosos",
explicou Helena Elza de Figueredo, uma das mães fundadoras
do movimento Helaiz. "Acho que a
ação foi bem sucedida porque conseguimos mostrar que
cada um de nós pode fazer alguma coisa para prevenir o
desaparecimento ou o seqüestro ou a morte de nossas
crianças", avaliou Márcia Evangelista Cruz,
também fundadora do Helaiz.
Sobre o Helaiz
O movimento Helaiz foi assim batizado por Helena Elza de
Figueiredo e por Márcia Evangelista Cruz em memória
de suas filhas Maria Heloísa e Laiza. As meninas, de nove e
11 anos, foram seqüestradas em suas casas (no Morro do Tuiti,
em São Cristóvão, e na Rua do Santana, Centro)
e mortas em julho e agosto de 2006, respectivamente.
Elas não
terão de volta as suas filhas, mas não se conformam
com o fato de haver outras crianças em risco de ter o mesmo
destino. Por isso, decidiram criar um movimento social de alerta
à população sobre os perigos existentes e os
cuidados possíveis para a prevenção de novos
casos de seqüestro e assassinato de meninas e meninos. A
maioria das vítimas é pobre e fica em casa enquanto
os pais trabalham, mas sem dinheiro para pagar babá ou
creche particular. Elas são levadas de dentro de suas casas
ou abordadas nas ruas.
"Queremos despertar a solidariedade no combate a
esse tipo de violência. Temos de ser todos
responsáveis pelas crianças, mesmo por aquelas que
não são nossas filhas", afirma Márcia. "O
poder público precisa agir, garantindo creches e escolas em
tempo integral, assim como investigando e punindo os criminosos,
mas temos também que fazer a nossa parte", explica Helena,
sobre a razão da existência do movimento Helaiz.
Contexto:
.Das cerca de 400 crianças
desaparecidas no Rio de Janeiro, 5% foram raptadas.
.Somente em 2006, houve o rapto
de quatro meninas.
.Duas dessas meninas, levadas de
suas casas, em São Cristóvão e no Centro da
cidade, foram assassinadas e os corpos, encontrados em
Seropédica, zona oeste do Rio.
.As vítimas têm
perfil recorrente: são pobres e costumam ficar em casa, com
irmãos, para que os pais possam trabalhar.
.Mais de um autor de raptos
já foi identificado por testemunhas em retratos
falados.
.A tática empregada no
crime é recorrente: vítimas previamente escolhidas,
muitas vezes na porta da escola, crime planejado, uso do
convencimento para que as crianças sigam os seus
algozes.
.Há outras táticas,
como a oferta de cestas básicas, de brinquedos ou doces, mas
na maioria dos casos recentes os criminosos entraram nas casas das
vítimas, fingiram falar com as suas mães ao telefone
e alegaram ter de levar ao conserto eletroeletrônicos
furtados das casas, em companhia das vítimas.
.De acordo com as
investigações policiais, há sempre
cúmplices envolvidos, como taxistas e receptadores de
eletroeletrônicos do camelódromo da
Uruguaiana.
.Há muita
desinformação em relação aos cuidados
preventivos.
.Não há uma
política pública que garanta espaço seguro em
tempo integral para crianças na faixa etária de
risco.
.A legislação
federal obriga a polícia ao registro de ocorrência
imediato, mas nem sempre isso ocorre.
Missão da Helaiz
Promover ações
sociais nas escolas e espaços públicos para
conscientizar crianças e adultos sobre os perigos existentes
e os cuidados possíveis para se evitar o seqüestro, o
rapto e o desaparecimento de crianças, assim como lutar
contra a impunidade e por políticas públicas
preventivas